quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O Futebol como espetáculo, o futebol como economia global


O ano é 1958, dia 29 de junho, cidade de Estocolmo, capital da Suécia; Brasil e os donos da casa fazem a final da copa do mundo. Por conta da tecnologia disponível na época, aqui no Brasil, como na maior parte do mundo, só é possível acompanhar o jogo pelo rádio.

No jogo histórico, o Brasil conquista sua primeira copa do mundo com um placar de 5 a 2 contra os donos da casa, com dois gols de Pelé, dois gols de Vavá e um gol de Zagallo. Um dos gols, o “chapéu” que o Pelé deu no zagueiro sueco dentro da área, é considerado por muitos como o mais belo gol marcado em uma copa do mundo.

Na realidade, a primeira copa do mundo transmitida pela televisão foi a copa de 1954, porém, somente para 8 países da Europa. No Brasil, somente no ano de 1970 foi possível acompanhar os jogos pela televisão.

Caminhando para o século XXI, 30 de junho de 2002, cidade de Yokohama. Outra final da Copa do Mundo. Desta vez, porém, o palco dessa incrível partida não poderia ter outro local, que não o futurista Japão. Brasil e Alemanha fazem a grande final, daquele que seria o mais esperado encontro da Copa do Mundo de todo os tempos.

Numa partida emocionante, Ronaldo Nazário, o Fenômeno marca dois belos gols, e o Brasil conquista o penta-campeonato contra a Alemanha, consagrando o Fenômeno como grande artilheiro da Copa (hoje ele é o maior artilheiro em Copas do Mundo de todos os tempos), o técnico Felipão e todo elenco brasileiro.

Na ocasião, o jogo foi assistido ao vivo por mais de 69.000 pessoas, contando com a transmissão da televisão para praticamente todos os países do Globo Terrestre, com um público estimado em 1 bilhão e 100 milhões de telespectadores, e isso só para a final.

Qual a diferença entre 1958 e 2002? Os valores arrecadados com marketing e propaganda que a televisão, e os demais meios de comunicação puderam gerar. Na metade do século passado, a forma de se enxergar o esporte era uma, mais pura, digamos. Hoje, é encarada pura e simplesmente como comercial.

Só para que tenhamos idéia do que representa comercialmente uma Copa do Mundo, segundo dados oficiais da FIFA, para a Copa de 2010, que será realizada na África do Sul, foram negociados $ 2,65 bilhões de euros, entre patrocínios, direitos televisivos e móveis. E esses números se referem apenas ao que a FIFA negociou.

Em se tratando de qualidade técnica, não vou entrar no mérito da questão. Acredito que de um modo geral, o espetáculo se elevou. Não digo que os jogadores de hoje são melhores que o de ontem, não é nada disso, tampouco vou fazer esse tipo de comparação, pois não sou a pessoa exata pra isso. Mas com todo o aparato tecnológico, é óbvio acreditar que mais pessoas podem acompanhar aos jogos com mais qualidade, com mais emoção, com maior envolvimento.

Hoje, com os modelos de televisão extremamente avançados, como os de tela de 42 polegadas, som digital, e transmissão de canais que disponibilizam 10, 20, 30 câmeras diferentes instaladas nos estádios, que mostram os detalhes mais imprevisíveis de uma partida, assistir aos jogos de casa, ou de um barzinho que possua um telão, com os colegas, é um programa cada vez mais popular.

Porém, os jogos de futebol são muito mais do que belos gols, ou diversão entre os colegas. O futebol do século XXI é um dos setores de eventos mais rentáveis do mundo. E quando olhamos o mercado por essa óptica, constatamos que muitos empregos direta e indiretamente são criados. A começar pela parte médica, fisioterapia, até a questão da segurança, da limpeza, da manutenção dos estádios.

Aqui no Brasil, ainda que o dinheiro comercializado não seja tão alto quanto na Europa, aos poucos se tem buscado um modelo profissional para a gestão do futebol. Diferente dos países europeus, Japão e Estados Unidos, temos gravíssimos problemas que vão desde a condição inadequada dos estádios, até a falta de segurança para o público, e até mesmo aos jogadores.

Contudo, ainda que em passos tímidos, o país dá passos para resolver alguns problemas cruciais, e formar administrações profissionais ao esporte, e não somente passionais. Temos uma meta a cumprir até 2014, uma vez que neste ano sediaremos a Copa. Estádios estão sendo reformados, estratégias estão sendo traçadas, empresas estão sendo abertas e pessoas, treinadas. E isso já neste ano de 2010, ou seja, existe uma repercussão e movimento já iniciado para o recebimento deste evento tão lucrativo e abrangente.

Dessa fase moderna do futebol, o Palmeiras foi o primeiro clube de futebol a contar diretamente com um patrocínio de uma empresa em suas finanças. Em 1992, a Parmalat, multinacional de laticínios italiana, adotou a estratégia de marketing de se associar a um clube popular no Brasil, e que fosse reconhecido nacionalmente, a fim de utilizar sua imagem para lançar seus produtos.

Houve, na ocasião, um sucesso duplo: a marca Parmalat rapidamente se popularizou no Brasil, e o Palmeiras conquistou vários títulos importantes. Na ocasião, a Parmalat adquiriu vários jogadores importantes, formando um time competitivo. Em troca, obtinha lucro de imagem, de produtos, e posteriormente com a venda dos jogadores que se consagraram, para o exterior.

No ano passado, outro marco na relação histórica entre o mundo dos negócios e o futebol: o retorno de Ronaldo Nazário, o Fenômeno, ao futebol brasileiro, especificamente no time do Corinthians. Sua aquisição trouxe uma mudança significativa no comportamento dos clubes e as suas relações com o marketing esportivo brasileiro, e com a forma de se buscar patrocinadores, que até então não se via.

Para se ter uma idéia, o atacante recebe um salário anual de R$ 3,6 milhões. Porém, valor bastante inferior ao que recebia na Europa. Para ter sua renda “complementada”, o atacante recebe cerca de 80% dos contratos que o Corinthians possui com a Bozzano e com o Banco Panamericano, que somam R$ 11 milhões, por exposição de seus logotipos nas camias dos jogadores. Ao todo, estima-se que o jogador receba cerca de R$ 12,4 milhões por ano, entre salário e acordos publicitários, sendo o maior salário da categoria, pago no país.

Por outro lado, o Corinthians também lucra com a valorização e com a imagem do jogador. Somente com a Batavo, o time conseguiu um aporte de R$ 18 milhões. Estima-se que ao todo, Corinthians e Ronaldo faturem cerca de R$ 51 milhões em patrocínio.

Seguindo a mesma linha do Fenômeno, o Flamengo e o atacante Adriano fizeram um casamento que rendeu a ambos, contratos milionários. Com grande destaque no futebol italiano, o atacante brasileiro Adriano retornou ao país repatriado pelo clube da Gávea, Segundo dados, só em camisas, foram vendidas mais de 932 mil peças, com média de preço entre R$ 140 a R$ 150. Do valor arrecadado no total, cerca de R$ 8,3 milhões ficaram com o clube, e 10% desse total foram repassados ao jogador.

Muitas pessoas fazem crítica ao comércio que é o futebol. Porém, é ingenuidade pensar que se trata de um esporte puro, livre das ambições do mundo dos negócios. Na realidade, o futebol é um negócio como outro qualquer, classificado entre o esporte e o entretenimento, assim como qualquer outro programa televisivo, ou evento. Claro que as emoções de se torcer por um determinado time, as jogadas fantásticas, tudo isso dá muita discussão, etc. e tal, move torcidas, causa polêmicas e discussões. E esse universo polêmico, não devemos nos iludir, também alimenta outra cadeia de negócios, oriunda do próprio futebol, e que é fundida a ele.

Mas, no final das contas, o que vale mesmo é o negócio como algo lucrativo, como algo rentável. E, por outro lado, se esse comércio permite trazer até nós craques do porte de Ronaldo, ou Adriano, melhor pra nós, melhor para a economia, melhor para o espetáculo. Assim são as coisas, como tudo na vida, como tudo no mundo, como em qualquer outro negócio.